Todas as cores do negro


Todas as cores do negro

          Antes, quando viviam em seus reinos, os povos africanos não tinham muito do que se queixar: uns moravam em cidades, outros na floresta, cada um no seu lugar. Alguns eram artesãos, outros lavradores, ourives, caçadores, cozinheiros, carpinteiros, tanta profissão que há. Nas aldeias, as caças eram assadas na brasa das fogueiras repartidas entre todos. O cesto estava sempre cheio de frutos para a fome das crianças.
         Ao entardecer, o sol mergulhava pouco a pouco na floresta, cobrindo a aldeia como um mando... Os tambores rituais tocavam, enchendo a noite de magia e de mistérios. As choças de palha eram quentinhas [...]. Parecia que tudo corria bem, mas havia guerras! [...] E foi por obra dessas guerras entre povos e irmãos que muitos deles foram capturados e vendidos como escravos, embarcando numa grande viagem para uma terra do outro lado ido oceano, de onde jamais voltariam.
          Um lugar onde teriam uma vida bem diferente: como escravos, sofrendo maus-tratos, açoites e humilhações. [...] Mas o povo negro não se calou nem perdeu a sua fé: lutou com as armas com que podia guerrear; muitos preferiram a morte, mas outros preferiram lutar.
          Muitos entraram no coração das matas e plantaram sonhos de liberdade: colheram os frutos da guerra; de uma guerra desigual já perdida há muito tempo, menos no espírito dos guerreiros. [...] Um dia o povo escravo festejou, porque tinha sido declarado livre. Tocaram os tambores, coloriram a noite com seus vestidos e mantos.
          Mas, depois, tudo se calou num silêncio surdo. Como se tivesse sido revelado um terrível segredo, que não existe liberdade sem frutos, sem pão, sem angu, sem inhame, que não existe liberdade sem choça para morar, que não existe liberdade sem cachoeira para se banhar. [...] Então o negro tentou se virar como dava: vendia mercadoria de porta em porta, engraxava sapatos, fazia todos os serviços pesados que ninguém gosta de fazer. [...]
          O sangue e o leite do povo negro correm nas veias dessa terra: até em povos que nem os conhecem, até em povos que lhe declaram guerra [...]. Uma grande nação formada de índios, negros, brancos, de tantos matizes a se misturar. [...] Rostos de todas as corresse pintam de negro, que é também a mistura de todas as cores. Numa alegria de quem aprende, a cada dia, as rédeas de seu destino tomar.


Holanda, Arlene. Todas as cores do negro. Brasília: Conhecimento, 2008. (texto adaptado)

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